O passivo que não podemos ignorar
Vou reproduzir aqui a coluna da Míriam Leitão de hoje no Globo, porque não dá pra colocar link permanente pra página.
PANORAMA ECONÔMICO - Míriam Leitão - 18/feb/2005
Aviso da tragédia
A Débora ligou para uma amiga que mora na Rocinha e ouviu o relato. Fatos banais, sempre espantosos. “Estou em casa presa com a família o dia inteiro. Com minha mãe, tia e netos. Minha filha está na casa do pai. As mortes aconteceram perto da minha casa; três corpos que foram retirados agora (na tarde de quinta-feira) são de trabalhadores. Um deles foi baleado às nove da noite e ficou gritando até a uma da manhã, quando morreu. Ninguém teve coragem ou pôde socorrê-lo. Fomos avisados pelos traficantes que tem toque de recolher.”
O Rio é cada vez menos partido. Existem as faixas de Gaza que separam comunidades vizinhas, como Parada de Lucas e Vigário Geral. Mas há outras por aí. Outro dia, um adolescente morador do Vidigal olhou de longe a Rocinha e disse:
— Minha prima mora lá, mas eu não posso ir visitá-la. Tem três anos que eu não vou lá.
Todo mundo fala estas coisas no Rio com a maior naturalidade. Depois, à noite, liga a TV e fica chocado com as imagens de Bagdá, ou da verdadeira Faixa de Gaza.
O Rio tem várias partições determinadas pela geografia do tráfico, mas está ficando menos partido porque a idéia de uma bolha onde se abrigam os ricos foi desfeita. Estamos todos na mesma vasta tragédia social. Parece um daqueles pesadelos dos quais a gente tenta se livrar, mas o corpo não acorda, não se liberta.
Sei que, a cada tragédia, algumas pessoas protestam para, depois, serem engolfadas pelo longo silêncio do cotidiano. Sei também que a freqüência maior das vozes é quando algum bando ataca a Rocinha, que é na Zona Sul. Segundo a vereadora Andrea Gouvêa, 70% dos trabalhadores da Rocinha trabalham em casas, lojas, bares, vans, shoppings, restaurantes da Zona Sul.
O porta-voz da Polícia Militar, coronel Aristeu Leonardo, disse que eles atacam as conseqüências:
— Enquanto continuar esse desnível socioeconômico, esses problemas estruturais, provavelmente continuarão nascendo mais marginais.
Tudo é muito mais complexo do que essa grosseira simplificação da polícia; aliás, parte do problema.
— Os policiais, muitas vezes, são cúmplices e a gente precisa saber de qual facção criminosa eles são — diz a vereadora que, como vizinha da Rocinha, viveu cada minuto daquela terrível noite de quarta-feira, vendo os mesmos fatos estarrecedores aos quais temos nos acostumado.
— A polícia se negava a ir numa casa resgatar a filha de uma moradora da Gávea dizendo que era muito perigoso. Eles tiveram todas as informações da iminência da invasão. Quando vi que um policial tinha sido morto no Vidigal, sabia que haveria invasão na Rocinha. Seria a vingança — conta Andrea.
As polícias são parte do problema há muito tempo. Uma certa forma distorcida de fazer política também. As autoridades de segurança têm usado a crise do Rio como trampolim, numa química estranha porque transformam fracasso em alavanca para suas carreiras. O caso mais grotesco é o do ex-governador, ex-secretário de segurança e, de fato, autoridade máxima do Rio por sete anos e que se sente com prestígio para disputar o governo brasileiro. Mas ele não é o único. A cada crise, as autoridades da área batem bumbo e anunciam panacéias, depois esquecidas.
— Cadê o bunker da Rocinha inaugurado há mais de ano como se fosse a solução de tudo? — pergunta-se a vereadora.
No Rio, há erros velhos, mas houve um período, no passado recente, quando a curva de homicídios e crises começou a cair lentamente.
— Isso aconteceu há uns oito anos; começou uma ligeira queda, mas depois voltou a subir. Agora fica num movimento errático; sobe oito, cai três, sobe cinco. Não tem tendência clara e substancial na cidade — diz o sociólogo Gláucio Soares.
O problema da violência aqui tem muitos anos e várias causas. Algumas delas são escolhas não feitas.
— Pagamos o preço de não termos feito a coisa certa há algumas décadas: investimento em educação, como nos países asiáticos; reforma agrária séria. Há também o problema do consumo de drogas pelos ricos. Eles pagam mais caro pelo mesmo produto que é vendido mais barato nas favelas. Assim, o consumidor mais rico está financiando o tráfico e subsidiando o consumo de jovens da favela — explica Gláucio.
A corrupção policial dificulta qualquer solução. A manipulação estatística tenta esconder o que todos sabem por viver aqui.
— Esses números não são confiáveis e não mostram queda da violência como um todo. Para ter uma idéia, eles divulgaram que mortos em “auto de resistência”, ou seja, mortos quando resistiram à prisão, foram 33 em 2005. Só de ler os jornais, dá para saber que é muito mais — afirma Andrea Gouvêa.
São vários os erros do Rio e eles se congregam de forma explosiva. Há falta de informação sobre tudo, até sobre o que é a Rocinha: é uma cidade com várias classes sociais.
— Tem desde o indigente até o que tem dinheiro para construir o prédio de onze andares e alugar os apartamentos. Tem o morador de classe média e tem o pobre. Lá tem tudo; há quem nasceu, estudou e morou na Rocinha a vida inteira — diz a vereadora.
Quantos são?
— O IBGE diz que são 56 mil. A Light tem 23 mil relógios instalados e mais cinco mil pedidos, além dos gatos. Os postos vacinam anualmente 6.500 crianças de até 4 anos. Acho que, na verdade, são 100 mil a 120 mil os moradores — calcula ela.
Há problemas estatísticos, mas há uma assustadora sazonalidade, lembra Gláucio Soares:
— Em dez dos últimos onze anos, a maior taxa de homicídio, a maior violência, foi em março. O pior está por vir.

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